Forças Africanas não convencionais do Exército Português

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Forças Africanas não convencionais do Exército Português

Mensagempor Lightning » Sexta 10 Mar, 2006 9:49 pm

Tropas Especiais

Chamadas Tropas Especiais (T.E.) devido à natureza especial do seu recrutamento, tiveram origem na deserção em 1965 de Alexandre Taty, ministro do armamento da UPA que, tentou substituir Holden Roberto mas falhou. Mais tarde através de agentes da PIDE negociou o seu perdão e regresso a Angola trasendo 1.200 tropas leais, as operações do outro lado da fronteira no Congo e Zaire eram rotineiras visto as TE serem compostas por tropas negras sem qualquer identificação portuguesa, vestindo uniformes dos rebeldes e transportavam armas e equipamento do bloco soviético. Estavam organizados em grupos de 31 homens, um lider e 3 secções de 10, existindo 4 batalhões de 16 destes grupos, portanto 64 grupos de TE.

Grupos Especiais

Em 1968 surgiram grupos semelhantes no Leste de Angola, formados por rebeldes capturados ou que se entregavam, estes grupos tinham a designação de Grupos Especiais (G.E.).
Havia 99 Grupos de GE com 31 homens cada em Angola.
Em Moçambique também se formaram GEs, sendo no principio 550 homens e acabando por atingir 7.700 homens, formou-se 12 Grupos Especiais Para-Quedistas (GEP) agragados à FAP para auxilio aos Para-quedistas normais, constituidos por: 1 Tenente (comandante), 1 Sargento especialista em operações psicológicas e 4 sub-grupos com 1 Sargento (comandante), 4 cabos e 12 soldados, num total de 70 homens por GEP, mais tarde formou-se também um pequeno número de Grupos Especiais de Pisteiros de Combate (GEPC), em Moçambique GE, GEP e GEPC atingiram 8.500 tropas.

Milicias

Na Guiné as unidades semelhantes às GE e TE como forças para-militares eram chamadas Milicias. Havia as Milicias Normais e as Milicias Especiais, as Normais viviam perto das aldeias e tinham um papel defensivo protegendo as populações de ataques. As Milicias Especiais conduziam operações ofensivas longe das defesas locais. No fim da guerra existiam 9.000 homens nas Milicias Normais e 23 Grupos de 31 homens nas Miliciais Especiais.

Fieis Catangueses

Em 1960 dá-se a independencia do Congo Belga,uma facção apoiada por Portugal declara o Catanga um estado independente mas ao fim de golpes e contra-golpes em 1967 essa força rebelde passa a fronteira para lutar ao lado dos portugueses. Estes Fiéis eram cerca de 4.600 sendo 2.300 homens em condições de combater e formaram 3 batalhões conservando a sua cadeia de comando e respectivos oficiais e srgentos.

Comandos

Em 1962 o exército sentiu a necessidade de uma unidade de intervenção rápida especializada em contra-guerrilha chamada Comandos, na Guiné os Comandos recrutados localmente eram chamados Comandos Africanos. Em Angola havia 5 companhias com 125 homens cada, sendo estas companhias mistas não sendo nenhuma maioritariamente europeia ou africana. Na Guiné o Batalhão de Comandos era constituido por 3 companhias de Comandos Africanos. Em Moçambique o Batalhão de Comandos possuia 8 companhias de Comandos, sendo 4 europeias e 4 africanas.

Fuzileiros

Os Fuzileiros tem a sua origem no Regimento Naval Real formado em 1618, desactivado em 1890, reactivado em 1924 mas desactivado de novo 2 anos depois, até 1961 quando aparecem como a força existente actualmente. Quase exclusivamente recrutada, formada e treinada em Portugal, as Companhias de Fuzileiros de 150 homens(CF) zelavam pela segurança costeira e apoio fluvial. As operações especiais eram efectuadas pelos Destacamentos de Fuzileiros Especiais de 80 homens(DFE), no seu auge em 1971 existiam 11 DFE e 8 CF.
Apenas na Guiné, em 1970, se formaram 2 Destacamentos de Fuzileiros Especiais africanos, DFE 21 e DFE 22.

Flechas

Foram as forças africanas mais controversas, a PIDE desempenhava as funções de serviço de informações estilo MI6 ou CIA, em 1967, começaram a usar auxiliares locais conhecedores do terreno, da população e dos dialectos. A PIDE constatou que os bosquimanos eram os que estavam melhor apretechados para este trabalho que viviam nas áreas deserticas do sudeste de Angola. Como eram pequenos não conseguiam carregar armas pesadas, deste modo, continuaram a utilizar os seus arcos e flechas com pontas venenosas, os guerrilheiros ficavam aterrorizados com estas armas e dado o temor que isso provocava estes homens eram chamados de "flechas". Em 1974 existiam cerca de mil "flechas".
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Mensagempor Yosy » Sexta 10 Mar, 2006 10:09 pm

Bom artigo. Essa dos Flechas serem pequenos e assim não poderem transportar equipamento é que está completamente errada. Embora no início eles usassem flechas venenosas, isso era devido a falta de treino e problemas logísticos. Mais tarde usaram a G3.

Falta aí os Leais: semelhantes aos Fiéis só que os Leais vinham da Zâmbia.
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Mensagempor JLRC » Sexta 10 Mar, 2006 10:30 pm

Em Moçambique também havia milicias normais. Na minha zona, a ZOT (Zona Operacional de Tete), tinham a sede em Tete, comandados por um tenente e depois tinham destacamentos nos principais aldeamentos, formando zonas sob o comando de um alferes. Usavam uma farda preta. O tenente que os comandava quando lá estive era (e é) por sinal um grande amigo meu. O alferes que comandava a zona de acção da minha companhia dormia no meu aquartelamento, em Moatize. Também havia pisteiros em Moçambique.
A minha companhia forneceu um furriel para os GE, 2 cabos para as milicias e alguns soldados para os pisteiros.
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Mensagempor Lightning » Sábado 11 Mar, 2006 12:00 pm

Yosy Escreveu:Bom artigo. Essa dos Flechas serem pequenos e assim não poderem transportar equipamento é que está completamente errada. Embora no início eles usassem flechas venenosas, isso era devido a falta de treino e problemas logísticos. Mais tarde usaram a G3.

Falta aí os Leais: semelhantes aos Fiéis só que os Leais vinham da Zâmbia.


Estes artigos foram retirados de um livro, mas como é muito extenso eu fiz resumos deles todos e aqui os expus anteriormente. Agora ponho uma parte exactamente como está escrita e referida a essa matéria, mas eu não sou testemunha de nenhum destes acontecimentos por isso o que não estiver correcto é porque o livro está mal.

"A PIDE teve de fazer uma série de concessões ao utilizar os busquimanos em funções de reconhecimento. Eram de baixa estatura e não podiam carregar armas pesadas. E, de facto, a espingarda portuguesa G-3 era demasiado pesada e muito dificil de manejar. Deste modo, continuaram a utilizar os seus arcos e flechas com pontas venenosas. Alegadamente, os insurrectos ficavam aterrorizados com esta arma e, dado o temor que isso provocava, os homens que a manejavam eram chamados «flechas». Antes de se decidirem finalmente por usar as AK-47 soviéticas, experimentaram-se várias armas. Em 1974, a uniformização começou com a muito leve espingarda M-16 norte-americana."

Este artigo dos Flechas foi escrito com o auxilio de Óscar Cardoso, entrevistado pelo autor a 1 de Abril de 1995, Azaruja, Portugal, ele foi um antigo inspector da PIDE\DGS e desempenhou um papel importante na criação dos Flechas.

Contra-Insurreição em África de John P.Cann
pág.142

isto não tem haver com o artigo mas também possuo um artigo relativamente permenorizado sobre o Regimento de Caçadores Para-quedistas (RCP) na Guerra Colonial, não me importava de o escrever mas não tenho a certeza se o deva por na parte do exército ou no da Força Aérea. :?: :?: aceita-se opiniões :?
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Mensagempor Cabeça de Martelo » Sábado 18 Mar, 2006 8:51 pm

O RCP pertencia à Força Aérea.
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Mensagempor NotePad » Sábado 18 Mar, 2006 11:34 pm

...
Editado pela última vez por NotePad em Domingo 25 Fev, 2007 5:52 am, num total de 1 vez.
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Mensagempor JoseMFernandes » Domingo 19 Mar, 2006 6:54 pm

NotePad Escreveu:
Yosy Escreveu:Essa dos Flechas serem pequenos e assim não poderem transportar equipamento é que está completamente errada. Embora no início eles usassem flechas venenosas, isso era devido a falta de treino e problemas logísticos. Mais tarde usaram a G3.


Os flechas eram recrutados de uma tribo com uma genetica muito especifica eram baixos e magros e os mais 'fortes' nao pesavam mais de 50kg e a sua grande vatagem tactica era a sua velocidade e agilidade vantagem essa que era perdida com o emprego de armas e equipamento mais pesado, dai eles não usarem a G3 nem 'similares'.


Os 'flechas' originais, do Cuando-Cubango ( Kuando-Kubango em angoles actual) no SE de Angola eram, é certo, basicamente bosquimanos "bushmen" (como referi noutro lugar deste Forum devo muito provavelmente a vida a um).Julgo que a eles (e a OPVDA) se deve que um territorio superior a tres vezes Portugal Continental(*) fosse na fase final da guerra, considerado totalmente controlado com muito escassas forças militares (parece quase 'vergonhoso' confessar que o numero real dos militares portugueses expedicionarios nessa zona imensa nao ultrapassava as poucas centenas de homens).
A designaçao porém acabaria por englobar outros e variados elementos destas forças anti-guerrilha, especialmente fora das Terras de Fim-do-Mundo. Quanto a armas e outro equipamento pessoal nao estavam constrangidos pela dotaçao normal das forças regulares portuguesas( tal como alias os seus 'coordenadores' da DGS)Utilisavam o que lhes apetecia, dentro das disponibilidades ( isto por aquilo que vi...!)

*Um livro a citar, ( muito fraco no texto, mas algo esforçado nos graficos):
ANGOLA 1966-74 - Vitoria Militar no Leste - de Antonio P.Nunes, da col.Batalhas de Portugal- Ed. Tribuna)
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Mensagempor dremanu » Sábado 08 Abr, 2006 5:39 pm

Não sei se conhecem as fotografias e desenhos deste livro:

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E o inimigo:

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"Esta é a ditosa pátria minha amada."
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Mensagempor Miguel » Sábado 08 Abr, 2006 5:47 pm

tenho esse livro, muito bom! :wink:
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Mensagempor Duarte » Sábado 08 Abr, 2006 7:41 pm

Um óptimo livro...

Quem me dera haver mais :)
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Mensagempor Cabeça de Martelo » Segunda 10 Abr, 2006 4:20 pm

Adorei as imagens, mas só tenho a fazer um pequeno reparo, os Pára-quedistas foram a unica unidade a usar a Armalite AR-10.
A foto onde mostra uma parada dos Pára-quedistas é no RCP em Tancos :wink:
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Mensagempor Miguel Silva Machado » Terça 11 Abr, 2006 10:39 am

Cabeça de Martelo Escreveu:Adorei as imagens, mas só tenho a fazer um pequeno reparo, os Pára-quedistas foram a unica unidade a usar a Armalite AR-10.
A foto onde mostra uma parada dos Pára-quedistas é no RCP em Tancos :wink:


BDia,
Mas olhe que há muito mais do que isso. O livro é bem intencionado em relação aos portugueses mas tem muitos erros, não só mas por exemplo em termos de uniformes. A foto da condecoração do estandarte dos pára-quedistas foi tirada muito depois da guerra, na parada da BETP, na altura em que o CTP foi condecorado com a Torre e Espada. A AR-10 de facto nunca foi usada pelos "caçadores" como ele refere. Mas há mais, tem vários erros nos uniformes do Exército e dos Fuzileiros. Refere por exemplo que as fitas das boinas dos fuzileiros eram verdes e vermelhas (eram pretas), diz que as boinas dos GEP eram amarelas (eram encarnadas/maroon), diz que as divisas dos SAJU eram azuis (nos páras) e eram douradas, apresenta uma enfermeira com camuflado do Exército (só houve enfermeiras militares nos pára-quedistas da Força Aérea), e mais uma série de detalhes. O autor inglês e o português são pessoas bem intencionadas, mas quando não sabiam, supuseram que...pensaram que... talvez fosse assim...assado, enfim o costume, infelizmente, em alguns autores, sobretudo estrangeiros quando escrevem sobre "pequenos e desconhecidos países" e alguns portugueses.
Mas o livro é, nas suas linhas gerais, correcto e elogioso para as FFAA e o seu papel na guerra em África.
Um Abraço,
MMachado
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Mensagempor Cabeça de Martelo » Terça 11 Abr, 2006 12:37 pm

Quem sabe...sabe!
Nestes livros encontramos muitas vezes alguns erros ou inverdades. Mas acredito que seja como já referiu, fazem suposições que na prática não aconteceram.
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N: «Combati ao lado dos Flechas»

Mensagempor Get_It » Terça 26 Dez, 2006 8:02 pm

Já agora, relativamente aos flechas, foi publicado no passado dia 24, no Correio da Manhã, uma entrevista com um ex-operador da PIDE que treinou e combateu com os flechas em Angola:
Joel Neto, Correio da Manhã Escreveu:Combati ao lado dos Flechas
2006-12-24 - 00:00:00

Meritória nos seus esforços de guerra apesar da controvérsia gerada aquém-fronteiras, a PIDE-DGS formou para a guerra colonial de Angola um pelotão de bosquímanos. Eram homens pequeninos, provenientes do deserto do Kalahari – e que comunicavam entre si com estalidos de língua. José Leitão Baptista, furriel de cavalaria, foi um dos portugueses que trabalharam com esses guerreiros extraordinários, rápidos e resistentes, dotados de uma incrível capacidade de sobrevivência e uma apreciável habilidade no seguimento de pistas e trilhos. Um privilégio, diz Baptista até hoje.

Dava um romance. Uma história de guerreiros misteriosos afastando-se na noite em direcção ao desconhecido. Uma história de heroísmo, de modéstia e de silêncios. Com a diferença de que, neste caso, os heróis não seriam homens altos, fortes, de chapéus indecifráveis. Apenas misteriosos, não mais. Homens de metro e meio de altura, comunicando entre si com estalidos de língua. Bosquímanos – ‘bushmen’, homens dos arbustos. O cinema imortalizou-os em ‘Os Deuses Devem Estar Loucos’. José Leitão Baptista conheceu-os pessoalmente. E combateu ao lado deles, em Angola, onde a PIDE-DGS, encarregada de grande parte dos esforços portugueses de inteligência de guerra, os recrutou para as mais difíceis missões de reconhecimento, seguimento de trilhos e orientação geográfica.

“Os bosquímanos eram muitos perseguidos. Eram pequeninos, fáceis de identificar no meio das restantes etnias e os ganguelas e os quiocos, cujos homens chegavam a atingir dois metros de altura, incendiavam-lhes as casas e as aldeias. De forma que a PIDE os recrutou com alguma facilidade, pois esse recrutamento significava até certo ponto a autonomia deles. E foi de facto uma escolha notável. Os bosquímanos revelaram-se guerreiros extraordinários, extremamente leais, ágeis, resistentes e velozes”, recorda José Leitão Baptista. “Eram conhecidos por ‘kamessequéis’, ‘vassequéis’, ‘kums’ ou apenas ‘bosquímanos’. A PIDE, no papel de entidade recrutadora, deu-lhes o nome de Flechas. Conheci-os pela primeira vez no quimbo do Cuíto Cuanavale. Levavam uma vida errante, de nómadas, em fuga às perseguições de que eram alvo. Pela sua fisionomia, pareciam ‘vietcongs’. Mas as mulheres eram lindas, de lábios finos. Era um povo diferente em tudo dos restantes africanos.”

Sediado na região de Serpa Pinto, capital da província de Quando Cubando, a que alguns chamavam então ‘Terras do Fim do Mundo’, José Leitão Baptista começara a sua participação na guerra pelo campo de concentração de Missombo. Fizera patrulhas, longas escoltas a colunas de reabastecimento nas quais se demorava mais de um mês nas entranhas do mato – e, inevitavelmente, acabou por conhecer a região tão bem quanto é possível conhecer um território quatro vezes do tamanho de Portugal. Furriel de um pelotão cujo alferes cedo ficou ferido, dividiu o comando com um camarada durante a esmagadora maioria das campanhas. Com um desafio suplementar: o seu pelotão fora escolhido para servir de piloto ao projecto de mescla de tropas negras e brancas – soldados e cabos negros, graduados e oficiais brancos, isto é –, o que o tornava num balão de ensaio para a integração étnica e, ao mesmo tempo, um pequeno barril de pólvora onde cada descuido poderia significar a degradação do ambiente.

Na verdade, não foi uma má experiência, recorda hoje José Baptista. À noite, nas casernas, os brancos dormiam ao lado dos brancos e os negros ao lado dos negros – mas durante o dia, em missão ou simplesmente circulando pelo aquartelamento, o pessoal misturava-se sem agressões e, inclusive, alguma harmonia. E, porém, quando o mato colocava os seus desafios, nem sempre era aos seus soldados autóctones que o furriel recorria. Nem ele nem os respectivos oficiais. Escolha recorrente: os bosquímanos – os Flechas, como hoje os recorda a História. Conheciam o terreno como ninguém, dispensavam a maior parte dos apetrechos logísticos e concluíam o seu trabalho sem uma reclamação. Acima de tudo, respondiam às ordens da PIDE. Mesmo que sob comando momentâneo dos militares, cumpriam principalmente a ordem dos seus recrutadores. A PIDE coordenava a espionagem e a contra-espionagem, negociava prisioneiros e geria os interrogatórios – a ela, e a mais ninguém, respondiam os bosquímanos. Se o agente da PIDE lhe dissesse que não deveria beber água, um Flecha não a bebia nunca, mesmo que quase morresse de sede.

“Mas o facto é que não morria. Por exemplo, um dia foi preciso deslocarmo-nos numa missão complicada, em que deveríamos ficar a patrulhar um determinado perímetro ao longo de cinco dias, e a primeira coisa que fizemos foi requisitar um Flecha. Ele guiou-nos através do território e, quando ficámos sem água, arranjou tubérculos suculentos que nos mantiveram vivos. Quando finalmente encontrámos água, no entanto, recusou-se a beber, seguindo as ordens da PIDE. Foi à procura de mel silvestre nas copas das árvores e assim sobreviveu”, conta Baptista. “Eram uns autênticos guerreiros. Aceitavam as rações de combate, mas iam entregá-las às mulheres, porque as achavam demasiado pesadas para as carregarem através do mato. Levavam só uma arma e um pouco de sal. O resto, caçavam ou apanhavam da natureza. E, sobretudo, nunca se deixavam decifrar. Continuavam distantes, misteriosos, românticos.”

Memórias deste e de outros tipos trouxe José Leitão Baptista para Portugal. Empregado de finanças antes da tropa, o jovem do Sabugal foi depois funcionário da Aeronáutica Civil e, mais tarde, bancário. Enviado para um colégio interno durante a infância e a adolescência, preparara-se para estudar Direito, mas acabou por tentar Arquitectura. Desistiu ao fim de dois anos, com quase metade do curso feito. Tornou-se, nas horas vagas, artista plástico, poeta, restaurador de madeiras e estuques – trabalhou em tudo, dedicou-se a tudo, fez de tudo. Mas em nenhuma actividade se sentiu tão envolvido com o seu objecto de trabalho como na de revisor de textos, ou ‘copy desk’, que desenvolve há cerca de 30 anos em várias editoras e nos mais diversos jornais (incluindo, no passado, o CM), inclusive acumulando-a durante duas décadas com a actividade de bancário. E, quando pensa nisso, ele próprio encontra ali, de vez em quando, uma ressonância do velho perfeccionismo que um dia reconheceu nos Flechas.

“Chega a ser uma obsessão, e nesse sentido nem sempre é saudável. Estou sempre a ler placas toponímicas, menus de restaurantes – sempre à procura de erros, sempre à procura da forma correcta, sempre a tentar aprender mais sobre a palavra e a língua”, conta. “O que mais gosto de rever, provavelmente, são os textos literários. No jornalismo, gosto sobretudo de rever crónicas, que é onde há uma maior depuração do estilo. Francisco José Viegas, Miguel Esteves Cardoso, Vasco Pulido Valente – há gente a escrever muito bem nos jornais. Mas, se tiver de escolher um autor, escolho o Eduardo Lourenço. Sempre preferi ler ficção, e com ele aprendi que também podia gostar de ler um ensaio. Em todo o caso, não fica nada. Ficamos com uma ideia panorâmica do texto, mas rapidamente ela se esvai. O revisor guarda muito pouco daquilo que lê.”

fonte: http://www.correiodamanha.pt/noticia.asp?id=225343&idselect=9&idCanal=9&p=200


Cumprimentos,
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Mensagempor Rui Elias » Quinta 28 Dez, 2006 3:33 pm

À direita na foto, o agente Óscar Cardoso, da PIDE-DGS, e "padrinho" dos "flechas" que actuaranm no sul de Angola, pricipalmente contra as guerrilhas do MPLA, e depois, ao lado dos sul-africanos contra a SWAPO:

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