Um país tem que estar preparado para a guerra, se direta ou indiretamente estiver com ela relacionado. Mesmo o simples facto de haver refugiados afeta as populações num país longínquo.
Neste momento, com a America da maneira como está, lembro que somos o ponto mais afastado da guerra. Toda a peninsula ibérica será o Eldorado europeu em caso de guerra no leste.
Só para lhe dar um exemplo, numa conversa que tive há dias, há alemães que vivem em parques de campismo em Espanha (em auto-caravanas ou casas pre-fabricadas) e todos tinham planos para em caso de necessidade, levarem os netos para a Espanha. E há centenas de milhares de alemães nestas corcunstâncias.
A questão dos refugiados, tem mais a ver depois com preparação das instituições, do que da população. Normalmente, quando se fala em preparar a população para a guerra, envolve coisas directamente ligadas ao combate, à logística e outras formas de contribuir, ou à sobrevivência da população (por exemplo, preparação para X dias/semanas sem água e comida). Os refugiados, virão de países directamente afectados pela guerra, sobretudo os que estiverem em vias de ser invadidos (Estados Bálticos, Polónia, Finlândia, etc), e não tanto da Alemanha e outros países mais afastados da Rússia. Isto assumindo que a guerra não vira nuclear, claro.
A sua extrapolação faz sentido, no que respeita à capacidade de defesa anti-míssil, onde a presença dos contra-torpedeiros americanos é absolutamente fundamental, sobre isso não há dúvidas.
Atenção que eu apenas exemplifiquei alguns meios que a Europa deixa de ter acesso, caso os EUA se abstivessem de nos ajudar perante uma ameaça russa. Estamos também a falar de umas 2 ou 3 centenas de Carros de Combate, uns 1000 blindados diversos, caças equivalentes 3x a FA Francesa, uma carrada de helicópteros ASW, de ataque, de transporte. Enfim, são só buracos que ninguém conseguirá suprimir tão depressa - principalmente por existirem demasiados "pesos mortos" na Aliança, como nós.
Na capacidade BMD, também estamos a falar de múltiplas baterias Patriot por exemplo, e THAAD.
Os próprios Burke, ou a falta deles, representam uma lacuna em termos do nº de VLS em geral, menos navios com poderosos radares, perde-se capacidade Land Attack (Tomahawk).
O sistema Skyshield seria em principio uma forma de reduzir esse problema, ou até permitir a substituição dos americanos.
A iniciativa Skyshield coloca a Europa no caminho certo. Mas vai demorar bastante tempo até ter efeitos práticos. Dos agora 25 membros, quantos deles é que vão adquirir baterias Patriot e/ou Arrow 3? Até agora só vi a Alemanha a comprar Arrow 3 por exemplo. De Patriot sempre há mais utilizadores, mas mesmo assim muitos não possuem nada equivalente.
No caso português então, é especialmente grave, com os nossos 3 RapidRanger e 1 radar, bem longe de termos as 4 camadas definidas no ESSI. Não sabemos quantos anos vamos demorar até comprar pelo menos metade das camadas mencionadas.
O ESSI para conseguir "substituir" os americanos, é preciso que isto seja levado a sério pelos membros, Portugal incluído, caso contrário, iremos manter um grande défice na capacidade AA e BMD, já de si agravada com a ausência dos Arleigh Burke e de toda a doutrina de superioridade aérea americana.
Já quanto aos porta-aviões aí discordo.
Não há nada que um porta-aviões americano possa fazer, que não possa ser feito a partir de uma base aérea espanhola, francesa, italiana, grega ou turca.
Substituir os porta-aviões americanos seria redundante.
Os americanos têm os porta-aviões porque isso lhes dá a capacidade de operarem aeronaves, sem terem que avisar os europeus. Um simples porta-aviões de pequenas dimensões pode fazer muita coisa, contra inimigos que não possuem meios equivalentes.
Mesmo que suponhamos que a capacidade do PA nuclear, pode ser replicada com as inúmeras bases aéreas na Europa, é inegável que um PA é muito mais do que apenas o navio. Um Nimitz, só em termos de caças, equivale a mais de 2 Forças Aéreas Portuguesas (em que os caças estão totalmente armados).
A realidade, é que a ausência deste navio, representa mais um buraco nas capacidades "europeias", que não será complementada tão depressa.
A isto acresce que, eu tenho sérias dúvidas que uma guerra de larga escala se limite a uma frente Leste. A possibilidade de presença de forças e bases russas em África, incluindo bombardeiros, veículos lançadores de mísseis balísticos e de cruzeiro, e eventualmente terem algum aliado no continente africano (Argélia por exemplo). Um PA nuclear, confere uma "base aérea móvel", com uma Força Aérea inteira em cima, que pode ser deslocada para enfrentar as ameaças provenientes de uma outra frente. Podes por exemplo tê-lo a operar perto do Golfo da Guiné, para lidar com forças russas no centro de África.
Essencialmente dá-te opções, para enfrentar variáveis que hoje se calhar não consideramos.
Relativamente ao que poderíamos fazer e onde poderíamos ter importância ainda que relativa, é evidentemente a nível marítimo, ainda que seja dificil prever combates de grande intensidade.
As ações navais seriam sempre anti-submarinas. Dificilmente qualquer coisa que flutuasse com a bandeira russa hasteada, teria possibilidade de sair do mar báltico, ou chegar mais a sul, no caso de vir do mar do norte.
Com uma não-participação americana, o Atlântico fica muito mais exposto. Na Europa temos demasiado poucos navios combatentes, e muitos deles com graves limitações a vários níveis, para garantir a segurança do Atlântico sem os EUA. Já tinha sido feito um estudo que, mesmo incluindo os EUA, havia falta de VLS na NATO, para lidar com ameaças modernas. Agora imaginem o mesmo estudo, sem contabilizar os EUA.
Quanto menos VLS tem cada navio, mais vezes este tem que voltar a um porto para ser abastecido. Ou seja, isto obriga a mais navios. E isto nem sequer contabiliza a taxa de disponibilidade das frotas de navios, que com sorte atingirá os 70%.
Depois temos as capacidades dos navios existentes. Uma grande quantidade das fragatas europeias, têm 30 ou mais anos, e são praticamente ou totalmente obsoletas, dependendo dos casos, e a sua substituição poderá demorar muitos anos.
É arriscado dizer que basta termos fragatas ASW, quando não sabemos quantas frentes teria um conflito destes, nem quando é que se daria este conflito, nem quais as capacidades dos russos, nem que aliados teriam eles nessa altura. Muito menos quando já sabemos de antemão, que dada a falta de escoltas de superfície, as fragatas nacionais seriam invariavelmente chamadas para reforçar ou render navios de forças tarefas aliadas.
Eu pessoalmente, não teria tanta certeza acerca da incapacidade russa de ameaçar o Atlântico, seja Norte, seja Sul. Basta eles conseguirem colocar os 2 Kirov operacionais, e edificarem uma força tarefa à volta deles (ou 2 distintas, cada uma com 1 Kirov), e já representa um poder naval assinalável.
Ou pior ainda, se a Rússia se lembra de adquirir à China escoltas modernas, nomeadamente os Type 055, a cena complica-se bastante.
Com bases russas e/ou chinesas em África na costa atlântica como uma possibilidade... facilmente vemos que não basta capacidade ASW.